MAIS LAIQUIS

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MAIS LAIQUIS – MARCIO RENATO DOS SANTOS

O livro de contos oferece 13 histórias rápidas e de agradável leitura, bem humoradas, que fala ao leitor sobre o isolamento e a virtualidade.
O título do livro fala de uma maneira irônica sobre o novo comportamento de conversas por “curtidas”, o desejo de visibilidade instantânea, e o fim da privacidade, a sensação de estar “vivendo o aqui e agora”, levando o leitor a refletir sobre uma nova interpretação da palavra “compartilhar”.
Porém, algo que fica claro é que o humor é apenas aparente, quase todos os contos abordam um tema oculto da alma: a crueldade, mesclada em momentos de narração com momentos de diálogos diretos e bem estruturados como no conto “O dia em que te vi”. O conto Bode Careca, na minha opinião, o melhor conto do livro, demonstra bem como a desconexão com o real, nos afeta diariamente em todas relações, inveja, mentiras, desejo de notoriedade e o limite entre o real, e uma existência fabricada, se mistura com a arte de encher linguiças.
Marcio Renato dos Santos já chegou a ser comparado, devido ao minimalismo de seus contos a um novo Raymond Carver.
Leitura recomendada!

O BODE CARECA

A situação na empresa mudou quando anunciei que iria publicar um livro. Anteriormente a rotina era como deve ser nos outros empregos. Dias agradáveis, outros nem tanto, mas tudo seguindo. E isso por anos — tempo suficiente para eu aprender o momento do alô, quando mostrar os dentes e a hora de calar.
Encher linguiça pode ser um lance legal. Não tem a ver com a frase do Otto Bismarck, que teria dito que uma pessoa não deve saber como são feitas as salsichas. O chanceler alemão realmente disse algo assim? Difícil acreditar. Alguém atribuiu esse equívoco conceitual a ele. Só pode.Bismarck era inteligente. E o cenário do meu ganha-pão nunca foi repugnante, com gordura e sangue escorrendo por todos os lados.
Passei por duas ou três seções antes de trabalhar no setor onde eram produzidas as linguiças, ou melhor, as salsichas de cachorro-quente. Tudo automatizado e limpo. Eu quase não colocava a mão na massa, no composto, a não ser, com luvas, quando vistoriávamos as vísceras de bovinos e suínos e os restos de frango, a matéria-prima das salsichas.
O Bode era o supervisor da linha de produção. Cheguei na empresa com pouca experiência comprovada, menos de três anos de registro em carteira. Mas na minha família, desde onde tenho conhecimento, e pelo que se comenta, todos enchem linguiça. Do tataravô até hoje, aprende-se a fazer embutidos em casa. E, por causa desse histórico, a partir do momento em que entrei no setor a produtividade aumentou.No fim do primeiro mês o salário chegou com bônus. Desde aquele dia, o Bode e eu passamos a almoçar quase diariamente em um mesmo restaurante.“Só não vale pedir salsicha, ok?”. Ele repetia o comentário quando a garçonete se aproximava perguntando sobre o nosso pedido. “O prato do dia, pode ser?”. Essa era a segunda frase que o Bode dizia antes das refeições.
Além de comer e beber, o Bode e eu conversávamos sobre o mais recente filme do Woody Allen ou do Tarantino, as obsessões dos narradores do Enrique Vila-Matas e outras novidades divulgadas nos cadernos de cultura. Não falávamos sobre exportação, juros, política internacional, conjuntura econômica, pecuária ou suinocultura. Naqueles trinta minutos, o intervalo entre os dois turnos, não lembro de ter conversado com o Bode sobre trabalho.
Tenho impressão de que nunca comentei com o Bode que eu escrevia ficção e publicava fragmentos em jornais e revistas. Também não mencionei, durante aqueles almoços, que havia enviado um livro de contos para uma editora.
A produção de salsichas na empresa aumentou, muito, nos quatro primeiros anos. Não preciso dizer, até já havia comentado, mas foi a minha presença, o meu conhecimento, que alterou a produtividade. O Bode sabia disso e se movimentou, com ações e também verbalmente, para que os proprietários e os gestores não soubessem que a atuação de um único funcionário tinha efeito naquele surpreendente ciclo de resultados positivos.
O fato de o Bode ter tomado para si os méritos não me deixou chateado. Os colegas de trabalho passaram a me hostilizar e o Bode me defendeu em várias situações. Passei a ser o alvo de piadas, diretas e indiretas, agressões verbais e sabotagens realizadas pela Anta, pela Mula, pelo Urso, pelo Chacal e pelo Lobo Bobo.
A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal e o Lobo Bobo já trabalhavam na empresa antes de eu ser contratado e diziam, diariamente, que eu era o empolgado da vez. Todos eles, isso escutei no banheiro, não lembro quem disse, também teriam trabalhado com entusiasmo e foram responsáveis, individualmente, cada um no seu tempo, pelo aumento da produção de salsichas. Mas apenas no primeiro, no máximo no segundo ano de empresa. Depois, o rendimento de cada um diminuiu, irreversivelmente.
A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal, o Lobo Bobo, o Bode e outros funcionários não entendiam o motivo de eu seguir por quatro, cinco anos empolgado. E eu poderia estar rendendo na empresa até hoje. Só não continuei no mesmo ritmo por que uma editora, aquela para onde enviei uns contos, anunciou a publicação daquele que seria o meu primeiro livro.
Esse fato mudou tudo.
Não, não me tornei famoso. Nem como escritor, nem na minha profissão. Continuo enchendo linguiça oito horas por dia, de segunda à sexta, mas, agora, em outra empresa. Este é o meu quinto livro e, quem quiser, pode perguntar por aí: conhece o Jony Rios? Fora os parentes e alguns colegas de trabalho, quem conhece? Nem os vizinhos.
Quando foi anunciada a publicação do meu livro de estreia, algumas pessoas, colegas e parentes, comentaram que eu me tornaria conhecido. Poucos comemoraram e houve, para mim, reações surpreendentes. O Bode, por exemplo, se tornou um inimigo declarado.
Em um primeiro momento, ele me parabenizou, comentando que, enfim, teria um colega famoso. A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal e o Lobo Bobo também me cumprimentaram após a divulgação da notícia.
Já no dia seguinte, os colegas começaram a fazer comentários, por exemplo: ele não está enchendo linguiça na literatura? A Anta perguntava durante o expediente sobre a conjugação de verbos irregulares. O Urso queria saber se eu conseguia explicar a diferença entre ditongos orais e nasais. Eu começava a falar, mas como, em geral, não respondia imediatamente às perguntas, os colegas riam, dizendo mais ou menos o seguinte:como alguém pode escrever ficção sem dominar a norma culta do idioma?
Em seguida, o Bode estimulou o conflito entre os funcionários. No caso, entre os colegas e eu. A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal e o Lobo Bobo agiam coletivamente contra tudo o que eu fazia. Se eu sugeria uma modificação nos processos, eles reagiam negativamente, quase ao mesmo tempo. O Bode também me sobrecarregou de tarefas, que eu realizava praticamente sem cometer erros. Mas quando algo, mínimo, apresentava problemas, ele parava toda a produção e, na frente de todos, chamava a minha atenção por meio de críticas que, antes da notícia da publicação do meu livro, não eram feitas, mesmo quando eu errava.
O Bode disse para os proprietários que eu estava distraído, preocupado com o lançamento do livro, já não rendia como antes e que, por isso, eu deveria ser demitido. Soube dessa e de outras informações durante uma conversa, reservada, com um dos donos da empresa.
Aconteceram incidentes, a respeito dos quais prefiro não comentar e, quando o Bode foi encontrado morto, fui um dos primeiros a ser chamado para depor.
Naquele período, durante um jantar, dividi a mesa com um conhecido, o Pavão, um terapeuta, amigo do Bode. Depois de algumas taças de vinho, eu disse para o Pavão que, se o Bode continuasse me prejudicando na empresa, eu daria uma surra nele. Ou contrataria alguém para espancá-lo. O Pavão sorriu e afirmou que o Bode, de fato, passou a agir com agressividade, até com os amigos, a partir do momento em que foi anunciada a publicação do meu livro. O Bode, isso quem me contou foi o Pavão, também escrevia contos e sonhava ter um livro publicado.
O Bode raspava o cabelo e algumas pessoas o chamavam de Bode Careca. Cultivou um cavanhaque nos últimos meses de vida. Na última imagem dele, registrada pelo circuito de câmeras da empresa, o Bode estava sem roupas, com o cabelo raspado e de cavanhaque. Ele se jogou dentro do triturador de carnes.
O investigador disse que o meu nome aparece em vários textos encontrados no computador do Bode. Prestei depoimento, apesar de que, no horário da morte do colega, eu estava autografando o meu primeiro livro.
O suicídio do Bode foi divulgado como parada cardíaca.
Na delegacia, tive acesso aos arquivos onde encontrei referências diretas e indiretas ao meu nome. O colega de trabalho condenava as minhas ações, reprovava o jeito de eu mastigar, de rir, entre tantas observações. De maneira geral, ele tinha convicção que eu era um sujeito desprezível, sem refinamento intelectual, um enchedor de linguiça que estava querendo se fazer passar por escritor.
O Bode repetiu uma mesma ideia em quatro ou cinco arquivos: queria telefonar para jornais e revistas denunciando que, literariamente, eu era uma mentira. E ele nem precisou acionar a imprensa: os jornais e as revistas praticamente ignoraram o meu primeiro livro, e também o segundo, o terceiro, o quarto e, provavelmente, este quinto não terá nenhuma visibilidade.
Se o Bode soubesse que eu continuaria ganhando a vida como um anônimo que enche linguiça, quem sabe, ele ainda não poderia estar por aqui, para rir dessa piada, dessa farsa, dessa encenação toda?

 

Marcio Renato dos Santos é escritor, autor dos livros de contos Minda-Au (2010, Record), Golegolegolegolegah! (2013, Travessa dos Editores), 2,99 (2014, Tulipas Negras Editora) e Mais laiquis (2015)

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