O OUTRO LADO DA NOTÍCIA

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    O OUTRO LADO DA NOTÍCIA

 

Até que ponto as notícias reais podem inspirar a literatura? Em tempos, a literatura vem  conquistando adeptos; por outro lado o jornalismo está perdendo a credibilidade, e neste jogo de poderes, toda e qualquer indagação sobre a veracidade dos fatos narrados são irrelevantes em razão das próprias sensações despertada no leitor diante de um estilo tão provocativo como é o próprio jornalismo literário. Aliás, ótimas referências não faltam, é justamente nessa passada que o O outro Lado da Notícia abre as lentes-da-verdade para a abordagem de um quotidiano tão nosso, é dessa capacidade assombrosa que a nossa realidade (processada através da leitura) se reinventa.

Ainda que a antologia de contos tenha sido lançada em Setembro de 2016, este livro merece uma leitura atenciosa, pois tanto ele vem se refazendo no intenso processo de validação junto com os acontecimentos do nosso dia a dia, quanto pelo time de autores, ou seja, não somente pela confiança atribuída aos escritores com bagagem necessária para tal, mas sobretudo pela qualidade dos contos presentes ali reunidos. Já na orelha do livro o organizador Daniel Lopes, que também inicia a antologia com o conto “Luto”, indaga: “ A literatura é a expressão de uma subjectividade dilacerada como no romantismo, ou é um instrumento de transformação da realidade, como no realismo ou naturalismo? O escritor tem algum papel importante? A arte tem alguma utilidade?”

A partir de então, a qualidade literária passa de uma mera observação da realidade para o refinamento do conto.

São 18 autores que têm uma única missão: “ter como base uma notícia”

Temos o olhar de Marcelo Adifa sob o Muro de Berlim, seguido pelo autor Eduardo Sabino, que se metamorfoseia em suas narrativas, há a ironia fina de Paulino Júnior no conto Modelo Decalque, e da sacada genial de Escobar Franelas que anuncia seu próprio retorno, para conferir Sérgio Tavares, que nos mostra os temores do início do HIV, e apreciar O Moedor no lugar do Coração, de Rodrigo Melo, conto que tem um desfecho motivado por um ponto de virada surpreendente, destaco também o excelente A volta do Monstro, de Bruno Ribeiro e O último coco em Forte Velho de Roberto Menezes.

A surpresa, no entanto, fica para o time feminino; Adriana Brunstein (leiam essa autora!), ela conta a surpreendente história de um homem que acorda depois de 20 anos em estado de coma, e não menos fiquei boquiaberta como a personagem  Lizete Alves explora o período da morte de Getúlio, e nos deixa na dúvida: o que teria acontecido no Beco dos Oliveiras? E, a autora Sonia Nabarrete nos trás a notícia de uma queda de avião em meio a uivos despudorados de gozo.

A antologia reúne todos os requisitos para que não larga-la até a última página – o drama, o inesperado, a comicidade, ficção e realidade.

Para encerrar gostaria de deixar o meu conto destacado que foi  “Na praia que começa o mundo” escrito por Brontops Baruq. Só posso dizer que ele encerra a antologia com chave- de- ouro. Você leitor que sabe se fecha ou se deixa a porta aberta.

 

Na Praia onde começa o mundo.

1

O velho o carrega nas mãos até a amurada e dali o solta, em um gesto teatral. Você circula a Arca, dá duas ou três voltas para fixar na memória, depois abandona o navio. Um olho na frente e outro para trás, de modo a sempre saber para onde está indo e para onde voltar, se e quando você encontrar terra.

Passam-se os dias e as noites, a paisagem pouco muda: o céu encoberto, o mar na cor de asfalto, ainda é muito perigoso. O vento vara latitudes e longitudes sem obstáculos e o chicoteia durante o voo. Sem continentes, as ondas crescem livres criando vales e cordilheiras de água. Você não é um bicho do oceano. Seu habitat é no meio das rochas, mas todas estão submersas até onde se sabe. Os demais pássaros tentaram aconselhá-lo, com o que conheciam, com o que imaginavam. Uma águia propôs que pescasse nas lagoas, sem perceber que todas as lagoas e rios viraram uma coisa só. A garça lhe falou de caranguejos imensos que poderiam lhe pinçar do ar para despedaça-lo na boca. O dodô sugeriu que seguisse seu coração e tudo daria certo. A gaivota pouco ajudou; previu apenas que sua morte seria rápida e úmida.

Mesmo que houvesse alguma sabedoria útil, você pouco guardou da conferência dos pássaros. Seu cérebro não tem capacidade para tanto. Há espaço apenas para alguns sentimentos básicos. Por exemplo, a inveja quase absoluta contra sua companheira, que ficou no poleiro. Aquecida, preservada, segura do resto do dilúvio em um caixote de madeira a balançar sem rumo, perdidos comandados por um velho.

Outro sentimento é o da exaustão, que o faz cochilar e cair na água.

É impossível voar, as penas encharcadas. Deveria se deixar levar, afogar-se, morrer em paz. Mas não. Você é estúpido demais até para isso. Luta, bate as asas, estapeia as ondas, tenta continuar respirando. Não há o que enxergar, é noite, mas você escuta algo como um rugido insistente. Apesar da treva, você percebe a seu lado estranhos recifes. Não são rugidos, é o troar das ondas contra a primeira de todas as praias. As marés, furiosas por terem chegado ao limite, explodem contra o litoral que apareceu ali. Jogado para lá e para cá, empurrado em meio à espuma, você alcança a firmeza da areia, e se afasta da água em um passo trôpego e cheio de voltas do qual jamais conseguirá se livrar. Cansado demais para qualquer outra coisa, desmaia.

 

2

É um sonho idiota e inútil, mas é divertido, confesse. Não é bem uma história, está mais para um quadro, uma situação.

Você sobrevive a um apocalipse muito mais absoluto que esse, do qual não resta nem água, nem céu, nem mundo. Apenas uma caverna. E, dentro dessa caverna, há um exército de terracota, uma infinidade de estátuas, uma imagem para cada criatura humana que já pisou e respirou. Ninguém mais existe, apenas você, um pombo, que tem como tarefa voar sobre cada uma dessas inúmeras frontes e presenteá-las com uma bela cagada.

Amanhece. O sol reaparece com dificuldade entre as nuvens ainda pesadas. Feito os urubus, você estende suas asas para secar naquela luz tímida. Com a claridade, percebe-se que os estranhos rochedos em meio às ondas não eram pedras. Eram cadáveres imensos, criaturas colossais, leviatãs, brontossauros, godzilas, megalomonstros encalhados à beira-mar.

Não havia apenas gigantes. Além deles, corpos de todo tipo de bicho e vegetal. Para cada casal a sobreviver na Arca, todos os demais da espécie se perderam na quarentena de enxurrada; girafas e caramujos, araras e ornitorrincos. Não eram apenas animais. Famílias de gentes, nobres e escravos, soldados e prisioneiros, lavradores e nômades. Levados pelas correntes, acumulavam-se pela praia, deitados em posições estranhas. Corpos inchados, vestidos de algas, cracas e siris, rolando felizes na praia.

Você nota, no alto de um dinossauro, outro pássaro. Suas asas estão secas e você pode arriscar um voo até lá. Surpreende-se ao encontrar o corvo, aquele, o primeiro a ser escolhido pelo velho para explorar o oceano.

Esta também fora uma decisão controversa do velho, muito debatida pelos animais. Afinal, por que corvos e pombos? Havia outros muito mais capazes e preparados, bichos de natureza migratória, andorinhas, albatrozes, gansos, as borboletas ou até os lemingues. Nunca se soube de corvos migratórios, justo eles que preferem ficar em meio à neve do inverno por apreciar olhos congelados em suas carcaças, um sorvete crocante.

Foi um boi quem melhor justificou a escolha do corvo, os corvos são astutos, talvez o velho veja nele uma espécie de irmão. Bem, se for assim, por que o pombo? Contra-  argumentou o chimpanzé. Todos riram, até sua companheira. Você não estava acompanhando a discussão. Na verdade, se estivesse, não estaria entendendo. O papagaio concluiu, lembrando que o pombo só foi escolhido porque o asno ainda não aprendera a voar.

De volta ao crânio de dinossauro, o corvo recebe com alegria o antigo companheiro. Sentia-se solitário, sem ter com quem crocitar. Elogia aquele novo continente e o novo mundo que surgirá dali. Um paraíso esperando alguém para se servir. Sem homens, nem falcões. Sem lobos ou hienas a disputar carniça. Sem outros corvachos como concorrência. Sem filhotes a chorar por comida. Aqui se pode ser rei. Há carne o suficiente para nós por décadas. Isso é uma benção de Deus, nós somos os escolhidos para reger esse banquete já temperado pelo mar. Essa nossa fartura putrefata.

 

3

Você escuta o corvo, sem perceber a proposta. Não se engane, você não é melhor que ele. Você não é, nem nunca será puro. Pureza é uma qualidade aplicável aos minerais, não à biologia.

Depois de descansar e se alimentar em meio ao lixo à beira-mar, você recupera um ramo de uma planta. As folhas contêm um estimulante, e masca-las o ajudará a resistir à travessia. De algum jeito, você consegue se orientar. Talvez as linhas magnéticas da Terra, talvez as constelações, talvez o fedor do esterco do rinoceronte. Ou, quem sabe, aquela linha de fumaça no horizonte, como uma prévia da estrela-de-Belém, apontando-lhe o caminho em meio ao mar.

O velho e sua família estão ocupados em tentar apagar o incêndio na Arca. Sem alternativa, alguns dos animais tentam ajudar, apesar do medo: elefantes com água em suas trombas; os tatus-bolas rolam sobre as chamas mais baixas para abafá-las. Você pergunta o que aconteceu. Sua companheira acusa os netos do velho, eles que iniciaram o fogo, enquanto faziam churrasco de unicórnio. Estavam cansados de peixe.

Vocês abandonam o barco rumo ao continente. Atrás, segue todo animal capaz de voar: um enxame, uma revoada. Libélulas, morcegos, harpias e colibris a peneirar o dia com suas sombras. Sem o peso deles, o calado reduz consideravelmente, deixando a Arca ainda mais instável. Ondas ultrapassam as amuradas e facilitam o combate contra o fogaréu. Galinhas, emas e avestruzes ressentem-se de suas escolhas vendo a nuvem partir.

Se você tivesse permanecido, teria notado que o ramo caiu de seu bico enquanto estava sobre o convés. Mais tarde, após o final do fogo, durante o rescaldo, algum dos humanos terá encontrado a folha em meio às penas e às cinzas. E assim o velho receberá a notícia de que existem terras, que as águas baixaram e que o mundo continuará. Ele ordena que sigam na direção tomada pelas aves. Em uma espécie de agradecimento, você, o pombo, se tornará um símbolo da paz. Ou de submissão, por mais que bombardeie sua repulsa sobre as cabeças humanas.

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